“Uma breve história da trans-misoginia”, de Jules Gill-Peterson

publicamos uma tradução livre do prefácio e da introdução do livro “Uma breve história da trans-misoginia”, de Jules Gill-Peterson. tradução do inglês para o português realizada por Bibliopreta e acervo trans-anarquista.

a tradução completa em PDF pode ser encontrada em nosso acervo digital e na biblioteca on-line da Bibliopreta (@bibliopreta).

““Transmisoginia” se refere à depreciação dirigida tanto à feminilidade trans como às pessoas consideradas transfemininas, independentemente de como estas se entendem. Embora ela possa se apresentar como um sistema de crenças, a transmisoginia também estrutura o mundo material por meio de disparidades nas possibilidades de vida e um conjunto de regimes punitivos característicos. Como um exercício de violência interpessoal ou estatal, a transmisoginia opera por meio da lógica do ataque preventivo. Ela transfeminiliza seus alvos sem o seu assentimento, geralmente sexualizando sua suposta feminilidade como se fosse uma expressão de agressão masculina. Esse processo de reconhecimento errôneo e projeção constroi seus alvos como inerentemente ameaçadores. O rótulo de ameaça, por sua vez, justifica a agressão ou a punição racionalizada após o fato como uma resposta legítima à vitimização — um manual de interesses próprios, se é que existe um. Quem quer que exerça a transmisoginia desfruta do raro privilégio de ser ao mesmo tempo a vítima e o juiz, o júri e o carrasco. A transgressão que desencadeia essa ofensiva pode ser tão mundana quanto andar na rua, ou um pânico moral tão exagerado quanto o suposto fim da civilização Ocidental. Seja como for, a presença passiva de uma pessoa trans-feminizada constitui quase sempre o pretexto solipsista para atacar primeiro. A transmisoginia ataca a própria existência da transfeminilidade ao atacar pessoas reais.”