notas/comunicados

“estamos aqui! somos queer! somos anarquistas”, de Edward Avery-Natale

nova tradução do acervo trans-anarquista: “‘Estamos Aqui! Somos Queer! Somos Anarquistas’: A Natureza da Identificação e Subjetividade entre Black Blocs”, de Edward Avery-Natale.

publicado originalmente em inglês no periódico Anarchist Develpments in Cultural Studies, volume 2010.1, no dossiê Post-Anarchism today, e intitulado “‘We’re Here, We’re Queer, We’re Anarchists’: The Nature of Identification and Subjectivity Among Black Blocs”.

a tradução completa pode ser encontrada em nosso acervo digital.

“Nos protestos contra o G20 em Pittsburgh, em 2009, um grito popular entoava a frase: “We’re here! We’re queer! We’re anarchists, we’ll fuck you up!” [Estamos aqui! Somos queer! Somos anarquistas, vamos acabar com vocês!”]. No entanto, é quase impossível que todos os integrantes do black bloc que entoaram esse grito se identificassem como queer em sua vida cotidiana. Neste artigo, defendo que a autoapresentação dos participantes do black bloc, especialmente quanto ao mascaramento do rosto com uma bandana preta e ao uso da própria cor preta, permite a destruição de uma identificação anterior e a recriação temporária de uma nova identificação. Enfatizo as teorias desenvolvidas por Deleuze & Guattari e Giorgio Agamben. Também analiso uma zine produzida pelos organizadores da resistência ao G20 em Pittsburgh para mostrar que minha interpretação da subjetividade black bloc se espelha nas reivindicações dos participantes do black bloc.”

perspectivas anarquistas-feministas sobre saúde reprodutiva e trans autônoma, de Alex Barksdale

novo texto publicado no acervo digital trans-anarquista.

tradução do artigo “Perspectivas Anarquistas-Feministas sobre Saúde Reprodutiva e Trans Autônoma”, de Alex Barksdale. tradução por acervo trans-anarquista. a versão completa dessa tradução pode ser encontrada em nosso acervo digital.

texto originalmente publicado em inglês no periódico Coils of the Serpent (11): 120-147, intitulado “Anarchist-Feminist Perspectives on Autonomous Reproductive and Trans Health”.

“Neste ensaio, examino as práticas autônomas de saúde [PAS] transfeministas, incluindo o aborto clandestino e autoadministrado que emerge do contexto da autoajuda feminista (Erdman, Jelinska e Yanow 2018; Murphy 2012; Thorburn 2017) e o uso autogerenciado de hormônios que emerge da “bricolagem trans” e do apoio mútuo (Edenfield, Holmes e Colton 2019; Raha 2021). Defendo que as PAS transfeministas são ferramentas singulares na luta pela autonomia reprodutiva, sexual e de gênero. Além disso, essas práticas ajudam a cultivar imaginações radicais de autonomia corporal e oferecem uma alternativa às políticas liberais feministas e trans que recorrem ao estado. Entretanto, com base no feminismo-anarquista e na justiça reprodutiva, afirmo que tais práticas não são suficientes em si mesmas para a conquista da autonomia corporal. Pelo contrário, defendo que as PAS devem ser entendidas e praticadas como parte de movimentos mais amplos de justiça e emancipação”.

“Por ser uma mulher trans, ela está sendo mantida em confinamento solitário”: a detenção de uma ativista contra a A69 é prorrogada

por LIBERATION e AFP

Na segunda-feira, 3 de fevereiro, Louna, uma ativista contrária ao projeto da rodovia Toulouse-Castres, foi submetida à prorrogação de sua detenção em confinamento solitário em uma prisão masculina até 15 de junho. Ela foi acusada de “destruir a propriedade de terceiros por meios perigosos” e “conspiração criminosa”.

descrição da imagem: Ativistas que protestam contra a rodovia A69 em Toulouse, em 25 de novembro (Antoine Berlioz/Hans Lucas. AFP)

Na segunda-feira, 3 de fevereiro, uma ativista trans acusada e presa em decorrência de seu protesto contra o projeto da rodovia A69 Toulouse-Castres teve sua detenção em confinamento solitário em uma prisão masculina prorrogada até 15 de junho, de acordo com o promotor público e sua advogada.

Cerca de 30 a 40 pessoas se reuniram em frente ao tribunal de Toulouse pela manhã para exigir a libertação da ativista, identificada apenas por seu primeiro nome, Louna, durante sua apresentação a um Juge des libertés (JLD), de acordo com sua advogada, Claire Dujardin.

Em meados de outubro de 2024, essa pessoa, nascida em 1999, foi acusada de “destruição da propriedade de terceiros por meios perigosos, conspiração criminosa para planejar um delito punível com 10 anos de prisão e recusa em submeter-se a uma amostra biológica destinada a permitir a análise e identificação da impressão digital genética”, de acordo com a promotoria pública de Toulouse. Em seguida, ela foi mantida sob custódia na prisão de Tarbes (Hautes-Pyrénées), uma prisão masculina onde foi mantida em confinamento solitário por quase quatro meses, de acordo com seu comitê de apoio, que inclui membros de organizações contrárias ao projeto da rodovia A69.

“Por ser uma mulher trans, ela está sendo mantida em confinamento solitário”, diz uma declaração de apoio publicada nas redes sociais sob o título “Free Louna”. Essa detenção “extremamente grave”, segundo Dujardin, foi prorrogada até 15 de junho, em um total de oito meses. “Colocar uma jovem mulher trans em confinamento solitário em uma prisão masculina enquanto aguarda julgamento é uma forma de abuso”, disse Isabelle Carsalade, psiquiatra infantil e membro do coletivo anti-A69, la Voie est Libre.

“Não houve nenhum assassinato”, explica ela, considerando essa detenção preventiva ainda mais ‘violenta’, pois ‘uma transição de gênero é algo já complicado’. Uma máquina de construção foi incendiada em maio de 2024, não muito longe da rota da A69, a rodovia disputada que deve ligar Toulouse a Castres até o final de 2025 e que é objeto de inúmeros conflitos legais e manifestações de oposição.

não há mais paciência para a violência anti-trans na Cidade do México

por Nache

notícia retirada do site Out Front Magazine, em 24 de Janeiro de 2025.

A Alianza Mexicana de Trabajadoras Sexuales, ou Aliança Mexicana de Trabalhadoras Sexuais, realizou um protesto no Edifício Juan N Álvarez Hurtado, na Cidade do México, para protestar contra a possível soltura de um homem que esfaqueou uma mulher trans. O homem, Alejandro “N”, esfaqueou a mulher trans e ativista Natalia Lane em 2022 e foi liberado da prisão e autorizado a permanecer em prisão domiciliar enquanto seu caso está em andamento. Natalia Lane disse: “Se eu morrer amanhã, suas mãos estarão manchadas de sangue”, no protesto em resposta a essa decisão tomada pela juíza magistrada Ruby Celia Castellanos Barradas.

As ativistas invadiram o prédio judicial em 16 de janeiro, picharam as paredes com suas reivindicações e quebraram vidros dentro do prédio. Durante o ato, Natalia disse: “Cansamos de ser pacientes, de esperar por justiça e reparação. O Judiciário, a partir de hoje, não terá paz”. Se esperarmos que nossa liberação nos seja concedida, estaremos sempre esperando.

A Aliança Mexicana de Trabalhadoras Sexuais se deparou também com manifestantes de oposição do Coletivo Nacional Não Mais Prisioneiros Inocentes, que defende Alejandro “N.”. De acordo com o La Prensa, os dois grupos estavam jogando tinta vermelha e água um no outro. Outros membros e aliados LGBTQ também estavam presentes, como Consuelo, uma mãe cuja filha trans Vanessa foi assassinada em fevereiro de 2024 e cujo assassino continua sem receber uma sentença quase um ano depois.

Essas histórias, embora importantes, não são únicas. A violência contra as pessoas trans acontece em todo o mundo e muitas vezes é ignorada ou varrida para debaixo do tapete. Há muitas pessoas e grupos que trabalham arduamente para silenciar as vozes LGBTQ+ e outras vozes marginalizadas. Eles tentarão manter o status quo em que nossas comunidades permanecem caladas e com medo. Mas nós seremos ouvides e vistes. As pessoas trans sempre existiram e sempre existirão. Continuaremos a nos organizar e a promover a nossa comunidade. Continuaremos a resistir.

 

“Uma breve história da trans-misoginia”, de Jules Gill-Peterson

publicamos uma tradução livre do prefácio e da introdução do livro “Uma breve história da trans-misoginia”, de Jules Gill-Peterson. tradução do inglês para o português realizada por Bibliopreta e acervo trans-anarquista.

a tradução completa em PDF pode ser encontrada em nosso acervo digital e na biblioteca on-line da Bibliopreta (@bibliopreta).

““Transmisoginia” se refere à depreciação dirigida tanto à feminilidade trans como às pessoas consideradas transfemininas, independentemente de como estas se entendem. Embora ela possa se apresentar como um sistema de crenças, a transmisoginia também estrutura o mundo material por meio de disparidades nas possibilidades de vida e um conjunto de regimes punitivos característicos. Como um exercício de violência interpessoal ou estatal, a transmisoginia opera por meio da lógica do ataque preventivo. Ela transfeminiliza seus alvos sem o seu assentimento, geralmente sexualizando sua suposta feminilidade como se fosse uma expressão de agressão masculina. Esse processo de reconhecimento errôneo e projeção constroi seus alvos como inerentemente ameaçadores. O rótulo de ameaça, por sua vez, justifica a agressão ou a punição racionalizada após o fato como uma resposta legítima à vitimização — um manual de interesses próprios, se é que existe um. Quem quer que exerça a transmisoginia desfruta do raro privilégio de ser ao mesmo tempo a vítima e o juiz, o júri e o carrasco. A transgressão que desencadeia essa ofensiva pode ser tão mundana quanto andar na rua, ou um pânico moral tão exagerado quanto o suposto fim da civilização Ocidental. Seja como for, a presença passiva de uma pessoa trans-feminizada constitui quase sempre o pretexto solipsista para atacar primeiro. A transmisoginia ataca a própria existência da transfeminilidade ao atacar pessoas reais.”

tornando-se irreal e impossível

por Marquis Bey & Chuck Mertz

texto originalmente publicado em inglês no site Antidote Zine. transcrito do episódio “This is Hell! Radio”, de 19 de julho de 2020. traduzido por acervo trans-anarquista em janeiro de 2025. essa tradução também pode ser encontrada em nosso acervo digital.

Se o anarquismo é uma derrubada radical do próprio estado que dita o que nos é possível, então o anarquismo exige que pensemos em coisas aparentemente impossíveis.

Fonte da imagem: Instagram, via Ill Will Editions

“Anarquismo é o desprezo pela subordinação e dominação. Não é o desprezo pelas regras. Ainda teremos sinais de trânsito e coisas desse tipo. É um desprezo pela imposição de regulamentos disciplinares punitivos que, de fato, impedem a proliferação da vida e da possibilidade da vida – isso é autoridade.”

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o que diz Marquise Bey? e leituras essenciais para o anarquismo Negro Trans

por Joshua C. Craig

texto originalmente publicado em inglês no site Bookriot. traduzido por acervo trans-anarquista em janeiro de 2025. foi empregada linguagem neutra e inclusiva em todo o texto. essa tradução também pode ser encontrada em nosso acervo digital.

 

Se você não sabe nada sobre anarquismo, está na hora de aprender. Qualquer pessoa que se considere contrária ao fascismo foi rotulada como terrorista nos Estados Unidos da América, a polícia federal está sequestrando manifestantes nas ruas das principais cidades e as forças policiais locais são constantemente designadas para serem nossos juízes, jurados e carrascos.[2] Se, em algum momento, existiram condições para união radical e ação comunitária em nosso país, esse momento é agora.

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flores e fogo: trans-anarquismo em 2024

 por Kell w Farshéa [1]

texto originalmente publicado em inglês no site Freedom Journal. traduzido por acervo trans-anarquista em janeiro de 2025. foi empregada linguagem neutra e inclusiva. o documento também pode ser acessado em nosso acervo digital.

 

O que significa ser trans anarquista neste momento do século XXI? O que significa ser uma pessoa trans inglesa, branca, da classe trabalhadora, vivendo em relativa segurança em Londres, neste momento de catástrofe climática global, em que as guerras se alastram pelos continentes, em que a força policial da superpotência desonesta estadunidense mata crianças negras impunemente, enquanto outro estado desonesto armado por essa superpotência mata crianças palestinas impunemente?

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monstruosidades anárquicas: trans-anarquistas contra o estado

por Bruno Latini Pfeil e Cello Latini Pfeil

Mikhail Bakunin escreveu que não nascemos livres, mas acorrentados a leis e moralidades, ao nosso berço de origem. Em suas palavras, “o homem não criou a sociedade, nasceu nela. Não nasceu livre, mas acorrentado, produto de um meio social particular criado por uma longa série de influências passadas, por desenvolvimentos e fatos históricos” (Bakunin, 1975, p. 12). Não é possível “partir do zero”, nem inventar linguagens e modos de vida desvinculados de onde nos encontramos. Não há como não nomear o mundo, a diferença e a norma. Contudo, é a institucionalização das nomeações que as produz e inscreve em políticas de aniquilamento. O culto à autoridade nos conduz a pensar em termos de governantes e governados, a adquirirmos certos ideais sobre nossos desejos e sexualidades. Em crítica a esse culto, o trans-anarquismo pode ser pensado como uma oposição tanto ao autoritarismo governamental como ao científico, que, no vasto campo de nomeações, designa certos corpos como monstros e outros como humanos.
Nomear a cisgeneridade toca no cerne da crítica libertária ao autoritarismo científico. Ao constrangermos aqueles que nos tratam como representações de diagnósticos, como monstruosidades, nos apropriamos do teor de ameaça que nos é atribuído – o monstro, afinal, personifica tudo aquilo que ameaça essa Humanidade à qual [não] pertencemos. Como figuras monstruosas, ameaçamos aquilo que se afirma como verdade. Todavia, quando nomeamos as raízes do Humano, compreendendo a historicidade do Monstro, ofendemos a norma, evidenciando seu medo e sua fragilidade.
Ofender a norma é um ato libertário que se apropria da linguagem num movimento disruptivo: constrangemos o ‘Eu’ cisgênero e argumentamos que a cisgeneridade é uma invenção que não beira a naturalidade; que a noção de natureza é uma ficção camuflada de verdade; afirmamos a irrepresentabilidade das vidas trans e a incapacidade de o Estado suprir nossas demandas. Em vez de assumir posturas assimilacionistas, anarquistas queer e trans-anarquistas defendem a emancipação social por táticas de combate à violência institucional, jamais firmando alianças com os braços do Estado. Há que se reconhecer os movimentos trans que lutam contra o Estado e suas instituições, e que não recorrem a seus tentáculos para mitigar as violências que o próprio Estado produz; que não confiam ao Estado a capacidade de nos proteger; e que não desejam se enquadrar em um violento ideal de humanidade.
A norma está onde diz que não está; se explicita quando inventa seu antagonismo. Ao passo que não há constrangimento em se nomear um corpo como monstruoso e embarreirar seu acesso à saúde; em intervir cirurgicamente em crianças intersexo para ‘adequá-las’ a um ideal cisgênero, endossexo e heterossexual; em reiterar a norma de modo vocabular, burocrático, cirúrgico e científico, a cisgeneridade institucional se recusa a nomear algo constantemente reiterado em todos esses processos. Denunciar a naturalização é uma das etapas do movimento anti-colonial por emancipação. É nesse sentido que defendemos um manejo trans-anarquista da linguagem, aliado à destruição do mundo como o conhecemos. Para construirmos outro mundo, é necessário que destruamos o atual; que nos apropriemos da ameaça que representamos para o Estado. E o manejo trans-anárquico da linguagem é um de nossos alicerces. A linguagem, por uma perspectiva trans-anarquista, é uma ferramenta disruptiva no próprio ato de nomear a norma e de prefigurar outras possibilidades de vida onde nossos corpos, desejos e pensamentos são tidos como possíveis.

Bakunin, Mikhail. O Conceito de Liberdade – Vol. 3, Porto: Rés Limitada, 1975

violência sacrificial e retribuição

por CrimethInc.[1]

texto publicado em 23/12/2024 no site do coletivo CrimethInc. tradução do inglês por acervo digital trans-anarquista. versão em PDF para download: [CrimethInc] Violência sacrificial e retribuição

Na análise a seguir, examinamos as reações a dois assassinatos extrajudiciais distintos como forma de entender as diferentes formas de violência que estão surgindo em nossa sociedade neste momento. No apêndice, apresentamos um resumo incompleto de várias respostas ao assassinato de Brian Thompson, CEO da UnitedHealthcare.

Quase todos os dias, mais de cinquenta pessoas são baleadas e mortas nos Estados Unidos. Em 4 de dezembro de 2024, uma delas foi Brian Thompson, CEO da UnitedHealthcare, a empresa de planos de saúde mais lucrativa do país. Nas semanas seguintes, todos nós ouvimos falar muito mais sobre esse CEO em particular do que sobre qualquer uma das centenas de outras pessoas baleadas e mortas neste mês. Ao mesmo tempo, houve uma onda de apoio ao ataque, apesar dos esforços das plataformas de mídia e empresários para suprimi-lo.

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por um feminismo trans-anarquista: transição como cuidado e luta

por Shuli Branson

artigo originalmente escrito em inglês e publicado na revista norte-americana Coils of the Serpent, em 16/06/2023. traduzido pelo acervo trans-anarquista em janeiro de 2025. essa tradução também pode ser encontrada em nosso acervo digital.

 

CONTÁGIO TRANSGÊNERO
Estou escrevendo esse ensaio a partir de um sentimento de insatisfação com o discurso anarquista, de frustração com o discurso trans, de frustração com o discurso feminista. Escrevo como feminista anarquista trans, para tentar trazer lições feministas ao anarquismo, para tentar reenquadrar importantes ideias feministas enquanto anarquistas em seu espírito e para tratar das experiências e possibilidades de transição como prática anarcofeminista. Quero assumir riscos em minhas reivindicações e conclusões, riscos de fracasso, riscos de me equivocar, a fim de tornar possível uma ação que mude o mundo aqui e agora, não apenas em um futuro imaginado. Utilizarei como base obras de todos esses campos, mas lerei assumindo posicionamentos, lerei impiamente, como meios que se igualam aos fins que imagino – junto com todas as pessoas com quem estou conversando – pela emancipação coletiva. Sob esse prisma, sucumbirei às seduções das ideias passadas de emancipação gay e de emancipação feminina, tentando evitar qualquer ingenuidade ou idealização, porque acredito que nosso anseio por seu entusiasmo é legítimo, ainda que seus movimentos tenham fracassado. Não concordo com uma análise supostamente madura e rígida que nos aprisione em nossas circunstâncias ou que teorize a reforma ou a assimilação como os únicos caminhos. Temos de ser audazes em nossas reivindicações e não fazê-las na linguagem da filosofia, da economia, do materialismo, da política, que sufoca nossos desejos que podemos descobrir em nossas práticas cotidianas. Para tanto, entendo o feminismo como um movimento que busca erradicar todas as hierarquias naturalizadas, o anarquismo como uma demanda para acabar com a ordem social, e a transgeneridade[1] (ou transição) como a possibilidade de mudança, de alteração de nossas condições.

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crônicas marcianas

por NN

texto originalmente publicado em espanhol, no Periodico Libertaria, em 7 de setembro de 2024. traduzido pelo acervo trans-anarquista em dezembro de 2024. essa tradução também pode ser encontrada em nosso acervo digital.

Com o surgimento de várias tecnologias antropocêntricas no espaço, nosso título não é mais uma questão de ficção. Apesar do fanatismo de ultra-dogmáticos religiosos e da conversa fiada neoliberal, os ricos estão prestes a destruir o espaço. A destruição calamitosa do planeta Terra pelo capitalismo é inevitável. Nesse sentido, falar de marcianos é realidade e não ficção. Assim, quando evocamos o título da obra de Ray Bradbury, nos refugiamos em uma escrita breve e verdadeira, ou seja, o contrário da ficção. Durante esses meses, e apesar do ambiente escasso e repressivo do Boluarte Genocida, houve vários eventos de natureza feminista, anarquista, anarco-feminista e trans-anarquista, esta última se o termo existir (que alguns chamam de A.Queer).

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memória trans: terf é morte, anarquia é esperança

texto originalmente publicado em espanhol, em Rojo y Negro, n. 394, em novembro de 2024. traduzido pelo acervo trans-anarquista em dezembro de 2024. também disponível em nosso acervo digital.

Todo mês de novembro, o Dia da Memória Trans (TDoR) é comemorado para homenagear as vítimas de violência transfóbica, especialmente as fatais, tanto os crimes diretos quanto os suicídios induzidos.

TERF É ÓDIO
O interesse deliberado das autoridades e da mídia em encobrir e ocultar o maior número possível dessas mortes, impedindo que sejam classificadas como crimes de ódio, nos impede de conhecer a grande maioria delas.

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trans-feminismo anarco-sindicalista

por lvysyn

texto originalmente publicado em inglês, em 01/04/2028, no site libcom. traduzido pelo acervo trans-anarquista em dezembro de 2024. a tradução completa pode ser encontrada no acervo digital.

O anarco-sindicalismo é um movimento que visa a libertação de todas as pessoas oprimidas pelo capitalismo através de sua luta pela abolição do capitalismo e pela criação de uma sociedade socialista libertária, ou Anarquista. Um dos grupos de pessoas oprimidas pelo capitalismo é o de pessoas transgêneras, fato que conheço bem por ser uma mulher trans. As pessoas trans são aquelas que não se identificam com a classificação de gênero que lhes foi designada ao nascimento. Nossa sociedade determina a identidade de gênero que as pessoas podem ter com base em seus órgãos reprodutivos, portanto, as pessoas são designadas como “macho” ou “fêmea”. Pessoas trans são aquelas que rejeitam as identidades de gênero que lhes foram atribuídas e obtêm/criam novas identidades de gênero para si mesmas. Essas pessoas podem se identificar como homens, mulheres, ambos ou nenhum.
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recusando-se a esperar: anarquismo e interseccionalidade (Deric Shannon & J. Rogue)

texto novo no acervo digital trans-anarquista, “Recusando-se a esperar: anarquismo e interseccionalidade”, de Deric Shannon e J. Rogue. tradução por Ticiana Labate Calcagniti.

esse artigo pode ser encontrado no acervo digital trans-anarquista

“O Anarquismo pode aprender muito com o movimento feminista. Em muitos sentidos ele já tem aprendido. Anarca-feministas têm desenvolvido análises do Patriarcado que o relacionam com a forma do Estado. Nós aprendemos com o slogan que “o pessoal é político” (por exemplo, homens que defendem a igualdade entre todos os gêneros devem tratar mulheres em suas vidas com dignidade e respeito). Nós aprendemos que nenhum projeto revolucionário pode ser completo enquanto homens sistematicamente dominarem e explorarem mulheres; que o socialismo é antes um objetivo vazio – mesmo se ele for “sem Estado” – se a dominação das mulheres pelos homens é deixada intacta.

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apoio à greve dos professores do município do rj

em frente à câmara de vereadores do rio de janeiro, professores, estudantes e apoiadores se manifestaram contra o pacote de maldades do Eduardo Paes, que precariza ainda mais as condições de trabalho dos professores e a educação no município.

o PLC 186 é uma imposição do Estado e os professores são os protagonistas da luta contra ele.

o Estado jamais esteve a favor de uma educação de qualidade para a população, de uma educação libertadora. por isso mesmo defendemos uma pedagogia libertária. e acabamos de saber que a greve dos professores está sendo criminalizada. não surpreende em nada. então, todo apoio à greve!

o ano em que os policiais foram expulsos do dia da memória trans

por Black Flag Sidney

essa tradução também pode ser encontrada em nosso acervo digital.

Em 2019, ocorreu uma importante mudança em Sydney[1] em sua comemoração anual do Dia da Memória Trans, um dia que celebra as vidas perdidas pela transfobia em todo o mundo. Durante anos, uma vigília foi realizada no Harmony Park, organizada pelo Gender Centre. A vigília não só era realizada ao lado da Delegacia de Polícia de Surry Hills, mas os policiais também compareciam uniformizados, eram co-anfitriões da vigília e recebiam um espaço para falar no evento.

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anarcofeminismo e separatismo. qual é o lugar dos homens (cis-hétero) na luta anarcofeminista?

por Tía Akwa

essa tradução também pode ser encontrada em nosso acervo digital.

Para quem luta

Recentemente, em um espaço de discussão feminista, surgiu a questão de saber se os coletivos, espaços e atividades enquadrados no anarcofeminismo e no anarquismo queer deveriam ter caráter separatista, principalmente no que diz respeito à exclusão absoluta de indivíduos que podem ser caracterizados como homens cisgêneros (ou seja, não transgêneros) heterossexuais. Para nossa grande surpresa, descobrimos que, entre os participantes, a maioria esmagadora consentiu com essa exclusão, justificando-a com fórmulas como a de que esses indivíduos são “expoentes do patriarcado”, que não podem “liderar as lutas, nem integrá-las, apenas apoiá-las de fora” e isso porque a luta do (anarco)feminismo “não é deles, não é a sua luta”.

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praxis prefigurativa anarquista queer

por Madelyyna Zicqua

essa tradução também pode ser encontrada em nosso acervo digital

Há algumas décadas, fala-se em abandonar o conceito cataclísmico de revolução, que a interpreta como um breve momento de insurreição geral que, de forma não muito clara, não apenas destrói o poder (político e econômico, supostamente), mas também institui uma nova ordem sem hierarquias. Esse conceito de revolução, infelizmente, é herdeiro de revoluções fracassadas, desde a comuna de Paris até a revolução russa. O conceito que o substituiu é um conceito de revolução que a considera como um processo estendido no tempo, de construção progressiva de espaços, instâncias e dinâmicas (em uma palavra, instituições) que estão em condições de operar de forma diferente, de maneira anarquista e comunista, e que também podem expandir progressivamente suas esferas de operação, a fim de atingir o maior número de pessoas. Essa noção de revolução pode ser chamada, para usar o termo dos anarco-pacifistas alemães da década de 1970, de uma revolução a partir das raízes da grama (Graswurzelrevolution; grassroots revolution em inglês) ou, simplesmente, uma revolução de base.

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trans-anarquismo: corporeidade transgênera e desestabilização do estado (Elis L. Herman)

trecho do artigo “trans-anarquismo: corporeidade transgênera e desestabilização do estado”, de Elis L. Herman (trad: Bruno Latini Pfeil e Cello Latini Pfeil)

artigo completo disponível no acervo.

“as pessoas transgêneras têm de negociar uma fronteira cultural monitorada por algum indivíduo que possui autoridade institucional; frequentemente, embora nem sempre, essa travessia de fronteira ocorre na interseção entre fronteiras físicas e abstratas (como na circulação entre países). Nestes pontos, as percepções de indivíduos em posição de autoridade sobre os indicadores culturais da normatividade de gênero são utilizadas para determinar se o poder institucional será invocado para punir um indivíduo cujo gênero não ‘passa’ na inspeção fronteiriça.
[…]
É evidente que a corporeidade transgressiva de gênero incita atos de vigilância, escrutínio e policiamento por parte do estado e de suas instituições. Ao questionar a natureza dessa vigilância, podemos expor os campos que fazem com que o estado se sinta mais ameaçado. Quanto mais violentamente uma fronteira é escrutinada, mais socialmente ameaçadora pode ser considerada sua travessia.”

tradução “resistindo à medicina, re/modelando o gênero” (Dean Spade)

tradução para o português do texto “resistindo à medicina, re/modelando o gênero”, de autoria de Dean Spade.

artigo publicado em 2003, na Berkeley Journal of Gender, Law & Justice, v. 18, issue 1. Originalmente escrito em inglês e intitulado “Resisting Medicine, Re/modeling Gender”. tradução realizada pelo acervo trans-anarquista.

Resistindo à Medicina, Re/Modelando o Gênero, de Dean Spade.

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publicação da revista trans-libertária, n. 1, 2024

acesso à edição completa e aos materiais separados:
https://transanarquismo.noblogs.org/revista-trans-libertaria-v-1-2024/

agradecemos a todes que enviaram seus materiais e confiaram nessa iniciativa. esperamos que esse projeto traga uma contribuição interessante para os vários núcleos, grupos, coletivos, frentes e indivíduos libertários que existem por aí.

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sexualidade como forma de estado

Jamie Heckert, “Sexualidade como Forma de Estado”, páginas 4 e 5.

“Se o anarquismo não é uma ideologia fixa, mas uma tendência em contínua evolução na história humana “para desmantelar […] formas de autoridade e opressão” (Chomsky, 1970), então parece evidente para mim que o anarquismo pode ser percebido nas críticas queer sobre qualquer suposta fronteira existente entre heterossexual e homossexual, e a violência que seu policiamento envolve. Portanto, nesse sentido, uma abordagem anarquista da orientação sexual não é particularmente original nem necessária. A teoria queer e os movimentos feministas e outros movimentos dos quais e com os quais ela se desenvolve já estão fazendo esse trabalho. Dito isso, sugiro que uma crítica explicitamente anarquista da orientação sexual pode ser valiosa para recontextualizar histórias, compreender experiências contemporâneas e desenvolver novas formas de relações e movimentos sociais.

[…]

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minha neurodivergência também é queer e anarquista

por Luz Costa

Eu seria muito tolo de não pensar na minha neurodivergência em oposição ao Estado psicofóbico. Se não há espaço para que eu possa viver plenamente meu corpo atípico, há menos ainda para meu corpo transqueer – em vista que os dois ocupam o mesmo espaço: eu. E seria ainda mais tolo em não ver crítica num espaço que recorre constantemente aos binarismos sexistas para explicar o meu diagnóstico: os homens geralmente têm ‘y’ comportamento e as mulheres ‘x’. Mas qual espaço meu corpo sem gênero ocupa no meio homem-mulher?

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Anarcotrans

por Luz Costa

1 de junho de 2024 

Parada LGBTQIA+ 

Olhava pela janela do ônibus enquanto ia em direção à avenida mais agitada da cidade – a av Paulista -, após esperar o ônibus por uma hora. O sol esquentava minha pele, e eu suava em contato com os moradores do meu bairro, que aos poucos enchiam o ônibus. Mas nada disso importava: eu estava orgulhoso! Era meu dia! Logo, entro no metrô e um show de imagens explodia à minha vista: eu via, animadamente, várias pessoas coloridas, pintadas e carregando alguma bandeira em si. A excitação era tanta, eu mal esperava pra estar, pela primeira vez, na avenida com tanta gente como eu, tão pertinho de mim! Enquanto chegava mais próximo da estação Trianon-Masp, mais nervoso eu ficava. 

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sobre boycetas, travestis e a sombra do oprimido

como costuma ocorrer quando pautas relativas às transmasculinidades ganham visibilidade, recentemente nos deparamos com a polêmica sobre o termo boyceta. seria este um termo adequado, equivocado, genitalista, contranormativo ou normativo? o que estariam propondo as pessoas que constituem suas identidades a partir deste termo e que dele o utilizam para se autodeterminar?

não podemos — e não nos interessamos por — generalizar experiências de autoidentificação, reduzindo sua multiplicidade a apenas uma motivação. as experiências transmasculinas que fazem sentido no espectro da identidade “boyceta” são plurais, e, embora compartilhemos vivências e demandas, não há apenas uma maneira de ser boyceta, tampouco apenas um único significado.

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autoritarismo acadêmico, uma não-denúncia

o fantasma da boa educação e dos bons costumes mantém um clima falso de concórdia. é um veículo extremamente silencioso e eficaz de violência, especialmente de violência institucional.

vejamos como isso se expressa em uma situação absolutamente hipotética. um professor universitário com anos de casa [e que se autointitula anarquista] justifica seus assédios sexuais e morais sob a prerrogativa de que “temos que acabar com as hierarquias” e “eu sou afetuoso mesmo”. e qualquer um que tente romper com o contrato da boa educação e dos bons costumes se torna um louco, um dramático, histérico, “jovem demais” para saber qualquer coisa, “incapaz” de interpretar as relações humanas, e passa a ser alvo de ameaças constantes, chantagens e abuso psicológico – sem falar em todo o punitivismo que ronda as conversas, reuniões e orientações de uma graduação ou pós-graduação.

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sobre a parada lgbtiap+ de são paulo

no dia 2 de junho de 2024, ocorreu a parada do orgulho lgbt de são paulo, repleta de bandeiras do brasil e empresas multinacionais patrocinadoras. na tentativa de ressignificar e “retomar” a bandeira nacional, de afirmar que o verde e amarelo é “para todes”, a parada lgbt se tornou, ao nosso ver, uma captura neoliberal, racista e governamental. para ilustrar, oferecemos uma comparação, que não consideramos desproporcional diante dos mais de 500 anos de colonialismo e colonialidade: se é impensável ressignificar a suástica nazista ou o símbolo do sionismo, como exatamente poderíamos ressignificar a bandeira do brasil? o que essa bandeira significa além de genocídio contra povos indígenas e africanos escravizados? as cores da bandeira, que a parada lgbt afirma serem “para todes”, foram escolhidas pelos responsáveis pela colonização dos territórios que convencionamos chamar de “brasil”. o que o lema “ordem e progresso” significa além de 500 anos de colonialismo, escravização e extermínio? o que significa efetivamente a ordem e o progresso tão fortemente bradados como símbolo de uma nação? a ordem como submissão à lei, o progresso como distanciamento de certo “primitivismo”: percebe-se a legitimação de um projeto colonialista global, que, em terras nomeadas brasileiras, culminou e culmina na perseguição de pessoas consideradas “desviantes sexuais”, na eugenia e no higienismo social.

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sobre a situação da saúde trans no perú

em 10/05/2024, o governo peruano publicou o Decreto Supremo nº 009-2024-SA, que designa a transexualidade como uma patologia mental, sob alegação de que a patologização justificaria o acesso de pessoas trans a atendimentos médicos. referenciando-se no CID-10, que compreendia a transexualidade como um transtorno de identidade de gênero, o governo peruano previsivelmente recusou as tentativas de negociação de movimentos sociais lgbtiap+. esse reacionarismo tipicamente institucional demonstra a impossibilidade de se aliar a forças governamentais para defender pessoas trans, e as mais afetadas por essas mudanças são negras, indígenas e periféricas. no dia 31/05/2024, ativistas trans se reuniram em frente ao Ministério da Saúde peruano e protestaram até o Palácio da Justiça, demandando a revogação do decreto e a adoção do CID-11, segundo o qual a transexualidade seria uma incongruência de gênero.

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